Em maio de 2026, celebramos os 135 anos da encíclica Rerum Novarum, escrita pelo Papa Leão XIII em 1891. Este documento, que marcou o início da Doutrina Social da Igreja, continua a ecoar com força em nossos dias, especialmente diante dos avanços tecnológicos e das mudanças no mundo do trabalho. A mensagem central da encíclica — a defesa da dignidade humana contra a lógica da produtividade e do lucro — encontra um novo campo de aplicação na era da inteligência artificial e da automação.
O padre Jerffeson Adelino, pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo, em São Paulo, reflete sobre a atualidade da Rerum Novarum e como seus princípios podem iluminar os desafios contemporâneos. "A encíclica nos lembra que o ser humano vale mais do que qualquer máquina ou algoritmo. Em um mundo onde a IA promete eficiência e produtividade, corremos o risco de esquecer que cada pessoa é única e insubstituível", afirma o sacerdote.
O contexto histórico e sua relevância hoje
A Rerum Novarum foi escrita em meio à Revolução Industrial, quando trabalhadores enfrentavam condições desumanas: jornadas exaustivas, salários miseráveis e total falta de proteção social. O Papa Leão XIII denunciou a exploração e defendeu o direito a um salário justo, ao descanso e à associação sindical. Hoje, a realidade mudou, mas os desafios persistem em novas formas.
Com a automação e a inteligência artificial, muitos empregos estão sendo substituídos por máquinas. A lógica da produtividade constante pressiona os trabalhadores a se adaptarem rapidamente, sob o risco de exclusão. Mas a Rerum Novarum nos alerta: o lucro não pode estar acima da pessoa. "A tecnologia deve servir ao ser humano, e não o contrário. Precisamos de políticas que garantam trabalho digno e proteção social para todos, especialmente os mais vulneráveis", destaca o padre Jerffeson.
O trabalho como vocação e não mercadoria
A Bíblia nos ensina que o trabalho é parte do plano de Deus para a humanidade. Em Gênesis 2.15, lemos que Deus colocou o homem no jardim do Éden "para o cultivar e o guardar". O trabalho não é uma maldição, mas uma forma de participar da criação divina. No entanto, quando o trabalho se torna mera mercadoria, desprovida de sentido e dignidade, ele desumaniza.
"Pois vocês foram chamados para a liberdade, irmãos; mas não usem a liberdade como desculpa para a carne; antes, sirvam uns aos outros mediante o amor." (Gálatas 5.13, NVI-PT)
O apóstolo Paulo nos lembra que a liberdade cristã é uma liberdade para o serviço. O trabalho, quando exercido com amor e justiça, torna-se um meio de servir a Deus e ao próximo. A Rerum Novarum ecoa essa visão, defendendo que o trabalhador não pode ser tratado como uma ferramenta descartável, mas como um filho de Deus.
Inteligência artificial e dignidade humana
A inteligência artificial promete revolucionar diversos setores, da saúde à educação, da indústria aos serviços. No entanto, seu avanço levanta questões éticas profundas. Como garantir que a IA não amplie as desigualdades? Como proteger empregos e garantir que os benefícios da tecnologia sejam compartilhados por todos?
O padre Jerffeson alerta: "A IA pode ser uma grande aliada se usada com sabedoria, mas também pode se tornar um instrumento de opressão se não for regulada por princípios éticos. A Igreja tem um papel profético de lembrar ao mundo que a pessoa humana vale mais que qualquer algoritmo."
O risco da idolatria tecnológica
Em Êxodo 20.4-5, Deus ordena: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa... Não te prostrarás diante deles nem os adorarás". A tecnologia, quando elevada ao status de salvadora, pode se tornar um ídolo. A confiança cega na IA e na automação pode nos levar a negligenciar o cuidado com o próximo e a buscar soluções puramente técnicas para problemas humanos.
Precisamos de uma "ecologia integral", como ensinou o Papa Francisco, que integre as dimensões social, econômica e ambiental. A tecnologia deve ser posta a serviço do bem comum, e não do lucro de poucos.
A contribuição da Igreja para o debate
A Doutrina Social da Igreja oferece princípios sólidos para orientar o desenvolvimento tecnológico. O princípio do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade são bússolas para uma sociedade mais justa. A Rerum Novarum foi o primeiro passo de uma longa tradição que inclui encíclicas como a Laborem Exercens (1981) e a Laudato Si' (2015).
"A Igreja não tem soluções técnicas, mas oferece uma visão antropológica que coloca a pessoa no centro. Precisamos de um diálogo entre fé, ciência e política para construir um futuro onde todos tenham lugar", afirma o padre Jerffeson.
O papel das comunidades cristãs
As paróquias e comunidades podem ser espaços de conscientização e ação. Grupos de estudo sobre a Doutrina Social, campanhas por trabalho digno e apoio a trabalhadores desempregados são formas concretas de viver o Evangelho. A Rerum Novarum nos convoca a não ficar indiferentes diante do sofrimento do irmão.
Reflexão e ação: o que podemos fazer?
Diante dos desafios da inteligência artificial e da automação, cada cristão é chamado a refletir e agir. Aqui estão algumas perguntas para sua meditação pessoal ou em grupo:
- Como estou usando a tecnologia no meu trabalho e na minha vida? Ela me aproxima ou me afasta de Deus e do próximo?
- Conheço a realidade dos trabalhadores da minha comunidade? Há pessoas desempregadas ou em condições precárias que precisam de apoio?
- Como posso contribuir para que a tecnologia seja usada para o bem comum, em vez de ampliar desigualdades?
Que a celebração dos 135 anos da Rerum Novarum nos inspire a renovar nosso compromisso com a justiça e a dignidade humana. Que, guiados pelo Espírito Santo, possamos construir um mundo onde o trabalho seja fonte de realização e onde cada pessoa seja valorizada como filha amada de Deus.
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados." (Mateus 5.6, NVI-PT)
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