Nos últimos anos, a palavra "sinodalidade" tem ressoado fortemente nos círculos eclesiais. Mas será que significa a mesma coisa para todos? O arcebispo de Valência, dom Enrique Benavent, levantou essa questão durante um simpósio universitário: "Hoje se fala muito de sinodalidade, mas muitas vezes não sei se todos sabem do que se fala ou se todos falamos da mesma coisa." Essa reflexão nos convida a aprofundar o verdadeiro significado desse conceito, que não é novo na história da Igreja.
A sinodalidade não é uma moda nem uma inovação. Desde os primeiros séculos, os cristãos se reuniam em sínodos para discernir juntos a vontade de Deus. O termo "sinodalidade" vem da palavra grega synodos, que significa "caminhar juntos". Não se trata apenas de uma estrutura organizativa, mas de uma forma de viver a fé em comunidade, onde todos os batizados têm um papel a desempenhar.
"Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros" (Romanos 12:4-5, NVI).
Essa passagem da carta aos Romanos nos lembra que a diversidade de dons e funções na Igreja não é um obstáculo, mas uma riqueza. A sinodalidade busca justamente valorizar essa diversidade, permitindo que cada pessoa, a partir de sua vocação particular, contribua para a missão da Igreja.
A sinodalidade na tradição da Igreja
Alguns pensam que a sinodalidade é uma invenção moderna, mas na verdade ela está profundamente enraizada na tradição cristã. Dom Benavent destacou que "na Igreja sempre houve sínodos" que assumiram formas diferentes ao longo da história. Desde os concílios ecumênicos até os sínodos diocesanos, a Igreja sempre buscou ouvir a voz do Espírito Santo através do diálogo e da reflexão comunitária.
Um exemplo antigo é a "Tradição apostólica", um documento do século III atribuído ao papa São Hipólito, que descreve a assembleia litúrgica como o Ubi floret Spiritus ("lugar onde floresce o Espírito"). Esse conceito sublinha que a sinodalidade não é apenas uma questão teórica, mas uma experiência viva de comunhão e missão.
O bispo de Solsona, dom Francisco Conesa, referência da Conferência Episcopal Espanhola para a aplicação do Sínodo da Sinodalidade, afirmou que "com a celebração do Sínodo, foi iniciado um processo de renovação da Igreja que afeta tanto sua vida espiritual quanto as estruturas existentes a serviço da missão." No entanto, ele advertiu que "sem a renovação espiritual, qualquer tentativa de reforma estrutural fica vazia, torna-se algo meramente burocrático."
Desafios e esperanças para o caminho sinodal
Nem todos estão entusiasmados com a sinodalidade. Dom Benavent reconheceu que "muitos não estão animados com o que significa uma ideia de sinodalidade aplicada à vida da Igreja." Isso pode ser devido a mal-entendidos ou medos de que a sinodalidade implique uma mudança radical que rompa com a tradição. No entanto, o arcebispo esclareceu que "a sinodalidade é um conceito eclesiológico que não supõe uma ruptura com a Tradição da Igreja", pois está enraizada nela e em continuidade com ela.
O verdadeiro desafio é como viver a sinodalidade de forma autêntica, sem cair no ativismo ou na mera discussão. Como disse dom Conesa: "O Sínodo é, principalmente, um acontecimento espiritual. Nenhuma reforma pode se limitar às estruturas, mas deve se enraizar na transformação interior." Isso implica que cada crente é chamado a participar ativamente, não apenas comparecendo a reuniões, mas abrindo seu coração ao Espírito Santo e ouvindo os outros.
"Onde não há
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