Uma pesquisa recente realizada no Canadá trouxe à tona um cenário que tem gerado reflexão entre líderes cristãos: muitos evangélicos no país demonstram confusão em relação a doutrinas fundamentais da fé cristã. O estudo, conduzido pela Ligonier Ministries Canada em parceria com a Lifeway Research, entrevistou mais de três mil adultos canadenses entre outubro de 2025, revelando dados que surpreenderam até mesmo os pesquisadores.
Os evangélicos foram definidos como aqueles que concordam fortemente com quatro afirmações teológicas: a Bíblia é a principal autoridade para a fé, a morte de Jesus é o único sacrifício pelo pecado, a salvação vem somente pela fé em Cristo, e a necessidade de compartilhar o evangelho. Apesar dessa base, os resultados mostram contradições significativas no entendimento de doutrinas como a Trindade, a natureza de Jesus e a condição humana diante de Deus.
Dados que chamam a atenção
Crenças sobre o pecado original e a natureza humana
Um dos pontos mais impactantes da pesquisa é a visão dos evangélicos sobre o pecado original. Cerca de 73% dos entrevistados afirmaram que “todos nascem inocentes aos olhos de Deus”, enquanto 60% disseram que “todos pecam um pouco, mas a maioria das pessoas é boa por natureza”. Essas afirmações contrastam com o ensino bíblico de que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Romanos 3:23, NVI-PT).
O apóstolo Paulo é claro ao escrever: “Portanto, assim como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo, e por meio do pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5:12, NVI-PT). A doutrina do pecado original não é um detalhe menor; ela fundamenta a necessidade da graça redentora de Cristo.
Confusão sobre a Trindade
Outro dado preocupante é a compreensão da Trindade. Embora 93% dos evangélicos afirmem crer em um único Deus que existe como Pai, Filho e Espírito Santo, dois terços deles também concordaram que “o Espírito Santo é uma força, mas não é um ser pessoal”. Essa contradição revela uma lacuna no ensino sobre a personalidade do Espírito Santo, que é apresentado nas Escrituras como alguém que ensina, guia e intercede (João 14:26; Romanos 8:26-27, NVI-PT).
Além disso, 45% dos evangélicos acreditam que “Jesus foi um grande mestre, mas não era Deus”, mesmo afirmando a autoridade das Escrituras. Essa negação da divindade de Cristo vai contra o cerne do cristianismo histórico, que declara que Jesus é o Verbo que se fez carne (João 1:1,14, NVI-PT) e que nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Colossenses 2:9, NVI-PT).
Visão sobre a Bíblia
A pesquisa também identificou inconsistências na forma como os evangélicos veem a Bíblia. Muitos a consideram a maior autoridade para suas crenças, mas 28% também disseram que as Escrituras “contêm relatos úteis de mitos antigos, mas não são literalmente verdadeiras”. Essa visão compromete a confiança na Palavra de Deus, que o apóstolo Paulo descreve como inspirada por Deus e útil para o ensino, a repreensão, a correção e a educação na justiça (2 Timóteo 3:16, NVI-PT).
O salmista declara: “A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho” (Salmo 119:105, NVI-PT). Sem uma base sólida na veracidade das Escrituras, a fé cristã perde seu fundamento.
Por que isso importa?
Os resultados da pesquisa não são apenas números; eles refletem uma realidade que pode estar presente em muitas igrejas ao redor do mundo. A falta de um discipulado bíblico robusto e de ensino teológico sólido tem consequências diretas na vida dos crentes e no testemunho da igreja. Como disse Chris Larson, presidente da Ligonier Ministries Canada: “Esses não são detalhes menores. São verdades fundamentais. Se errarmos nisso, não teremos cristianismo algum.”
A confusão doutrinária pode levar a uma fé superficial, que não resiste aos desafios da vida e não reflete o evangelho de forma fiel. Por outro lado, um entendimento claro das doutrinas bíblicas fortalece a fé, promove unidade na igreja e capacita os crentes a compartilhar sua esperança com clareza (1 Pedro 3:15, NVI-PT).
O que podemos aprender?
A importância do ensino bíblico nas igrejas
A pesquisa reforça a necessidade de as igrejas investirem em ensino bíblico sistemático e discipulado intencional. Não basta apenas pregar mensagens inspiradoras; é essencial ensinar as doutrinas fundamentais da fé, como a Trindade, a pessoa de Cristo, a salvação pela graça e a autoridade das Escrituras. Programas de escola dominical, grupos pequenos e estudos bíblicos são ferramentas valiosas para esse fim.
O próprio Jesus ordenou: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês” (Mateus 28:19-20, NVI-PT). Ensinar não é opcional; é parte central da Grande Comissão.
O papel dos líderes e pastores
Líderes e pastores têm a responsabilidade de alimentar o rebanho com a sã doutrina. O apóstolo Paulo exorta Tito a “ensinar o que está de acordo com a sã doutrina” (Tito 2:1, NVI-PT). Isso inclui não apenas expor a verdade, mas também refutar ensinos equivocados. A pesquisa mostra que muitos crentes estão expostos a ideias que contradizem a fé histórica, seja por falta de ensino ou por influência cultural.
Além disso, os líderes devem modelar uma vida de estudo e amor pela Palavra, incentivando os membros a buscar conhecimento teológico por meio de livros, cursos e recursos confiáveis.
Reflexão final
A pesquisa canadense nos convida a olhar para dentro de nossas próprias comunidades de fé. Será que estamos realmente ensinando as doutrinas fundamentais? Os crentes em nossas igrejas compreendem quem é Deus, quem é Jesus, o que a Bíblia ensina sobre o pecado e a salvação? Ou estamos apenas assumindo que eles sabem?
Que este estudo sirva como um alerta amoroso para que busquemos um discipulado mais profundo e intencional. Que possamos, como igreja, voltar às Escrituras e nos firmar nas verdades que nos foram confiadas. Afinal, como escreveu o apóstolo Judas: “Amados, embora estivesse muito ansioso para lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos, senti-me obrigado a escrever-lhes exortando-os a batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 3, NVI-PT).
Que o Senhor nos conceda graça e sabedoria para ensinar e aprender cada vez mais sobre a riqueza da sua Palavra.
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