Pastoral da criança: o legado de Zilda Arns continua salvando vidas

Fuente: EncuentraIglesias

Em um pequeno posto de saúde na periferia de Curitiba, todas as terceiras sextas-feiras do mês, Dona Marlene da Silva, de 62 anos, pesa e mede dezenas de crianças da comunidade. Há 18 anos ela é líder da Pastoral da Criança na região, dando continuidade ao legado de Dra. Zilda Arns Neumann, fundadora deste que se tornou o maior projeto social da Igreja Católica no Brasil.

Pastoral da criança: o legado de Zilda Arns continua salvando vidas

"Quando comecei, não imaginava que seria parte de algo tão grande. Mas quando você vê uma criança desnutrida recuperar a saúde, entende que está fazendo a obra de Deus", relata emocionada Dona Marlene, que já acompanhou o desenvolvimento de mais de 800 crianças ao longo de quase duas décadas.

Criada em 1983 pela médica pediatra e sanitarista Zilda Arns, a Pastoral da Criança atende hoje mais de 1,8 milhão de crianças em todo o país, através do trabalho voluntário de 180 mil líderes comunitários capacitados, principalmente mulheres das próprias comunidades.

Números que salvam vidas

Os resultados da Pastoral impressionam organizações internacionais de saúde. Desde sua fundação, contribuiu para a redução de 73% da mortalidade infantil no Brasil. Em comunidades onde atua, a taxa de mortalidade de crianças até 6 anos é 2,5 vezes menor que a média nacional.

Irmã Veroni Medeiros, coordenadora nacional da Pastoral da Criança, explica o método: "Utilizamos tecnologia social simples mas eficaz: soro caseiro, acompanhamento nutricional, vacinação e orientação às famílias. São ações que qualquer mãe pode aprender e aplicar".

Dr. Nelson Arns Neumann, irmão de Zilda Arns e atual coordenador médico da pastoral, destaca que a metodologia desenvolvida por sua irmã foi reconhecida pela UNICEF como uma das mais eficazes do mundo. "Zilda criou um sistema que combina conhecimento científico com solidariedade cristã. O resultado são vidas salvas".

Método que se espalha pelo mundo

A experiência brasileira foi replicada em outros 19 países da América Latina, África e Ásia. Na Argentina, Chile, Peru, Angola e Timor Leste, voluntários aplicam a mesma metodologia desenvolvida por Zilda Arns.

Padre Lancelot Rodrigues, da Pastoral da Criança em Moçambique, esteve recentemente no Brasil para curso de capacitação. "O modelo brasileiro nos ensina que não é preciso grandes recursos para salvar vidas. Basta organização, método e amor cristão", afirma.

A internacionalização do projeto foi uma das últimas realizações de Dra. Zilda antes de sua morte, em janeiro de 2010, durante o terremoto no Haiti, onde desenvolvia trabalho humanitário.

Atuação integral na família

Além do acompanhamento nutricional das crianças, a Pastoral atua na formação das famílias. O programa "Laços de Amor" orienta gestantes desde o pré-natal até os primeiros anos de vida dos bebês.

Ana Carolina Souza, de 28 anos, mãe de três filhos em Salvador, testemunha a importância desse acompanhamento: "Com meu primeiro filho, não sabia nem como dar banho direito. As líderes da Pastoral me ensinaram tudo: amamentar, fazer papinha, cuidar quando está doente. Hoje sou mãe mais segura".

O programa também inclui capacitação em geração de renda. Oficinas de costura, artesanato e culinária ajudam famílias a melhorar sua situação financeira. "Não queremos apenas que as crianças sobrevivam, mas que tenham perspectiva de vida digna", explica Irmã Veroni.

Reconhecimento internacional

O trabalho da Pastoral da Criança recebeu diversos prêmios internacionais. Em 2006, Zilda Arns foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz. A metodologia da pastoral está incluída nos manuais de boas práticas da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dr. Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, declarou durante visita ao Brasil: "A Pastoral da Criança demonstra como a fé pode mover montanhas na área da saúde. É um exemplo para o mundo de como as comunidades podem ser protagonistas de sua própria transformação".

Desafios contemporâneos

Em 2026, a Pastoral enfrenta novos desafios. A urbanização crescente exige adaptação de métodos tradicionalmente rurais. Nas grandes cidades, questões como violência urbana e famílias monoparentais demandam abordagens específicas.

Maria José Santos, coordenadora da Pastoral na região metropolitana de São Paulo, relata as dificuldades: "Nas favelas, às vezes temos que interromper o trabalho por causa da violência. Mas as mães não desistem. Elas sabem que a Pastoral faz diferença na vida dos filhos".

A pandemia também impactou as atividades. "Tivemos que reinventar nossa forma de acompanhar as famílias. Criamos grupos de WhatsApp, fizemos visitas com todos os cuidados sanitários. A missão não pode parar", conta Irmã Veroni.

Apoio da Igreja e do Papa León XIV

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reafirma constantemente seu apoio à Pastoral da Criança. Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, declara: "É uma das joias da Igreja brasileira. Mostra concretamente o amor preferencial pelos pobres que Jesus nos ensinou".

O Papa León XIV, em mensagem especial para o 43º aniversário da Pastoral, escreveu: "Que o exemplo de Zilda Arns continue inspirando cristãos de todo o mundo. Cuidar das crianças é cuidar do futuro da humanidade".

Formação de novos líderes

Para garantir a continuidade do trabalho, a Pastoral investe na formação de novos líderes. O Centro de Capacitação Zilda Arns, em Curitiba, forma anualmente cerca de 2 mil voluntários de todo o país.

Jéssica Oliveira, de 25 anos, é uma das mais jovens coordenadoras, atuando em Recife. "Conheci a Pastoral quando era criança e fui acompanhada por ela. Hoje quero retribuir, ajudando outras crianças. É um ciclo de amor que não pode se quebrar".

Perspectivas para o futuro

Para os próximos anos, a Pastoral da Criança planeja ampliar sua atuação urbana e fortalecer parcerias com o poder público. O projeto "Pastoral Digital" pretende usar tecnologia para potencializar o alcance do trabalho voluntário.

"Queremos chegar a 2 milhões de crianças acompanhadas até 2030. E sonhamos com o dia em que não precisaremos mais existir, porque todas as crianças brasileiras terão garantidos seus direitos básicos", projeta Irmã Veroni.

Assim, o legado de Zilda Arns permanece vivo e atuante, provando que pequenos gestos de amor, organizados metodicamente e inspirados na fé cristã, podem efetivamente transformar a realidade e salvar vidas em todo o país.


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