No Vale do Paraíba, interior de São Paulo, ergue-se imponente a segunda maior igreja católica do mundo: a Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Com suas torres que alcançam 100 metros de altura e capacidade para 45 mil pessoas, o santuário recebe anualmente cerca de 12 milhões de romeiros, consolidando-se como o maior centro de peregrinação da América Latina e um dos principais do mundo cristão.
Em 2026, a devoção à Padroeira do Brasil completa 299 anos desde o achado da imagem pelos pescadores João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedroso nas águas do Rio Paraíba, em outubro de 1717. A proximidade do tricentenário tem mobilizado católicos de todo o país em preparativos especiais que prometem fazer de 2027 o maior ano de peregrinação da história do santuário.
Romaria que não para
Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida, relata que o movimento de fiéis é constante ao longo do ano. "Em qualquer dia, a qualquer hora, há pessoas rezando diante de Nossa Senhora. Durante a pandemia, quando restringimos o acesso físico, as missas transmitidas pela TV Aparecida chegaram a ter 15 milhões de telespectadores", conta o prelado.
Os números impressionam: nos finais de semana comuns, cerca de 40 mil pessoas visitam o santuário. Em datas especiais como o 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, esse número pode chegar a 200 mil pessoas em um único dia. "É uma demonstração de fé que emociona. Pessoas que percorrem milhares de quilômetros para estar aqui", observa Padre João Batista de Almeida, reitor do santuário.
Diversidade de devotos
A peregrinação a Aparecida reflete a diversidade do Brasil católico. Maria do Socorro Oliveira, de 54 anos, agricultora do sertão de Pernambuco, faz a viagem há 12 anos consecutivos. "Junto dinheiro o ano inteiro para vir agradecer as graças alcançadas. Nossa Senhora nunca me abandonou", testemunha emocionada.
Do outro extremo social, o empresário paulista Carlos Eduardo Martins, de 45 anos, também é peregrino fiel. "Venho aqui desde criança com minha família. Não importa se está tudo bem ou se estou passando dificuldades, Aparecida é meu porto seguro", confessa.
A arquiteta carioca Ana Beatriz Santos, de 32 anos, representa uma nova geração de devotos. "Descobri Aparecida na faculdade, numa crise existencial. A devoção mariana me trouxe equilíbrio e direção de vida. Hoje venho todo mês", relata.
Centro de formação e cultura
Além da devoção, Aparecida consolidou-se como importante centro de formação católica. O Centro de Estudos da Religiosidade Popular e da Evangelização (CERE) desenvolve pesquisas sobre religiosidade popular brasileira, enquanto o Centro Pastoral João Paulo II oferece cursos de formação para leigos de todo o país.
A TV Aparecida, emissora católica com alcance nacional, produz programação religiosa 24 horas por dia, sendo transmitida também pela internet para brasileiros no exterior. "Somos mais que um santuário, somos um centro irradiador da fé católica", explica Padre Eduardo Dougherty, diretor de comunicação do santuário.
Impacto econômico e social
A romaria movimenta significativamente a economia regional. Segundo a Prefeitura de Aparecida, o turismo religioso gera cerca de 25 mil empregos diretos e indiretos na cidade e região. Hotéis, restaurantes, lojas de artigos religiosos e transportadoras dependem do fluxo constante de peregrinos.
José Carlos Mendes, presidente da Associação Comercial e Industrial de Aparecida, destaca: "O santuário é o motor econômico da região. Mas além disso, proporciona educação, saúde e assistência social através de suas obras".
O Hospital e Maternidade Frei Galvão, mantido pelo santuário, é referência regional em saúde, atendendo gratuitamente milhares de pessoas. A Universidade Católica de Aparecida oferece ensino superior a preços acessíveis, formando profissionais comprometidos com valores cristãos.
Devoção no pontificado de León XIV
A devoção mariana ganhou novo impulso com o Papa León XIV, que em sua primeira mensagem ao Brasil destacou: "Nossa Senhora Aparecida é mãe que acolhe, consola e orienta. Sua intercessão maternal acompanha o povo brasileiro em sua caminhada de fé".
O pontífice anunciou ainda que pretende visitar Aparecida em 2027, por ocasião do tricentenário do achado da imagem. "Será uma graça imensurável receber o Santo Padre em nossa casa", celebra Dom Orlando Brandes.
Preparação para o tricentenário
O ano de 2026 marca o início oficial das celebrações do tricentenário. Está prevista uma série de eventos especiais, incluindo um congresso internacional sobre devoção mariana, exposições históricas e um grande encontro nacional de movimentos marianos.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a campanha "299 dias de oração", convocando os fiéis para uma preparação espiritual especial. "Queremos que 2027 seja um ano de renovação da fé mariana no Brasil", explica Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB.
Modernização e preservação
Para receber dignamente os peregrinos do tricentenário, o santuário passa por obras de modernização. Um novo sistema de som permite que os fiéis em toda a basílica participem plenamente das celebrações. Elevadores foram instalados para facilitar o acesso de idosos e pessoas com deficiência.
Ao mesmo tempo, investe-se na preservação histórica. O Museu Nossa Senhora Aparecida foi totalmente renovado, apresentando de forma moderna a história da devoção e os milagres atribuídos à intercessão da Padroeira.
Aparecida no mundo
A devoção a Nossa Senhora Aparecida extrapolou as fronteiras nacionais. Comunidades brasileiras no exterior mantêm capelas dedicadas à Padroeira em países como Estados Unidos, Japão, Portugal e Paraguai.
Padre Marco Antônio Sanches, missionário em Boston, relata: "Nossa Senhora Aparecida é presença familiar para os brasileiros que moram longe. Ela os conecta com suas raízes e fé".
Assim, enquanto se prepara para celebrar três séculos de história, Nossa Senhora Aparecida continua sendo refúgio, esperança e símbolo de unidade para milhões de brasileiros, confirmando seu título como a maior romaria da América Latina e uma das mais significativas manifestações de fé católica do mundo contemporâneo.
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