No auditório da Paróquia São João Batista, no bairro da Urca, Rio de Janeiro, cerca de 200 jovens entre 16 e 35 anos participam semanalmente dos encontros preparatórios para a próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ), evento que ocorrerá em Lisboa em agosto de 2026. O entusiasmo é contagiante: cantos, orações, testemunhos e a certeza de que estão se preparando para algo que marcará suas vidas para sempre.
"A JMJ não é apenas uma viagem, é um encontro com Cristo vivo e com jovens do mundo inteiro que partilham a mesma fé. É impossível voltar igual", testemunha Maria Clara Ribeiro, de 22 anos, estudante de pedagogia que participará de sua primeira Jornada.
Em todo o Brasil, estimativas da Pastoral da Juventude indicam que cerca de 15 mil jovens católicos se preparam para participar do evento em Lisboa, número que pode chegar a 20 mil quando computadas as inscrições individuais e de grupos não vinculados oficialmente às dioceses.
Mobilização nacional
A preparação para a JMJ Lisboa 2026 mobiliza dioceses de todo o país. Dom Joel Portella Amado, Arcebispo Auxiliar do Rio de Janeiro e Bispo referencial da Pastoral da Juventude na CNBB, coordena os preparativos nacionais.
"Vemos nesta JMJ uma oportunidade única de renovação da Igreja jovem no Brasil. Após anos de pandemia, os jovens anseiam por experiências comunitárias fortes, e a JMJ oferece isso de forma incomparável", explica o prelado.
A Arquidiocese de São Paulo organiza a maior caravana brasileira, com previsão de 3 mil participantes. Dom Odilo Scherer, Cardeal Arcebispo paulistano, destacou recursos especiais no orçamento arquidiocesano para subsidiar a participação de jovens de comunidades carentes.
"Não podemos permitir que apenas jovens de famílias abastadas participem da JMJ. O Evangelho é para todos, especialmente para os pobres", afirmou Dom Odilo durante o lançamento da campanha "Nenhum jovem sem JMJ".
Diversidade que enriquece
Os grupos brasileiros refletem a diversidade da juventude católica nacional. Na Arquidiocese de Salvador, o projeto "JMJ Afrobrasileira" reúne jovens de comunidades quilombolas e periféricas, incorporando elementos da cultura negra na preparação espiritual.
Thaís dos Santos, de 19 anos, integrante do grupo de dança afro da Paróquia do Pelourinho, conta: "Vamos levar nossa cultura para Lisboa. Queremos mostrar que o catolicismo brasileiro tem cor, tem ritmo, tem raízes africanas. Nossa fé é alegre e contagiante".
No interior do Ceará, jovens sertanejos se organizam em grupos menores, mas com igual entusiasmo. Pedro Henrique Nascimento, de 20 anos, da cidade de Quixadá, trabalha como auxiliar de pedreiro e economiza há dois anos para participar da JMJ.
"Nunca saí do Brasil, mal conheço outros estados. Ir para Portugal encontrar jovens do mundo inteiro é um sonho que parecia impossível. Mas com fé e sacrifício, tudo se alcança", declara o jovem, que já arrecadou 60% dos recursos necessários através de bazares e rifas organizados pela comunidade.
Formação integral
A preparação não se limita aos aspectos logísticos. Dioceses implementaram programas de formação específicos, abordando desde história da Igreja até questões contemporâneas como ecologia integral, justiça social e diálogo inter-religioso.
Na Arquidiocese de Belo Horizonte, o programa "Rumo a Lisboa" inclui módulos sobre história de Portugal, cultura europeia e fundamentos da fé católica. "Queremos que os jovens cheguem preparados não apenas espiritualmente, mas também culturalmente", explica Padre Marcelo Motta, coordenador arquidiocesano da Pastoral da Juventude.
O Seminário Maior de Brasília abriu suas portas para curso preparatório aberto a jovens leigos. "É emocionante ver seminaristas e leigos estudando juntos, preparando-se para este encontro de fé", comenta Padre João Paulo Bezerra, reitor da instituição.
Inovação na comunicação
As redes sociais se tornaram ferramentas fundamentais na mobilização. O hashtag #JMJBrasil2026 já acumula mais de 50 mil publicações no Instagram, com jovens compartilhando preparativos, orações e expectativas.
Carlos Eduardo Silva, de 24 anos, seminarista da Arquidiocese do Rio, criou o canal no YouTube "Caminho para Lisboa", que já conta com mais de 15 mil inscritos. "Uso a internet para evangelizar e motivar outros jovens a participar. É uma nova forma de apostolado", explica.
A Rede Católica de Rádio desenvolveu o programa semanal "Jovens Rumo à JMJ", transmitido por 47 emissoras em todo o país, sempre apresentado por jovens e para jovens.
Impacto das JMJs anteriores
Muitos dos atuais coordenadores são veteranos de JMJs anteriores, especialmente da JMJ Rio 2013, que marcou profundamente a juventude católica brasileira. Patrícia Oliveira, de 32 anos, coordenadora diocesana em Goiânia, participou do evento carioca e de outras duas Jornadas.
"A JMJ Rio mudou minha vida. Lá decidi que queria trabalhar na Igreja. Hoje sou casada com um rapaz que conheci na JMJ Cracóvia 2016, e juntos coordenamos grupos de jovens. A JMJ cria vínculos que duram para sempre", testemunha.
Estudos da CNBB indicam que 70% dos jovens que participaram da JMJ Rio 2013 permaneceram ativos em comunidades católicas nos anos seguintes, índice significativamente superior à média nacional de permanência juvenil na Igreja.
Esperança no pontificado de León XIV
A expectativa para encontrar o Papa León XIV pessoalmente emociona os jovens brasileiros. O pontífice, que assumiu o papado em maio de 2025, ainda não visitou o Brasil, tornando Lisboa uma oportunidade única de contato.
"León XIV representa renovação e esperança. Queremos conhecer pessoalmente este Papa que herdou o legado de Francisco e promete continuar próximo dos jovens", afirma Ana Beatriz Costa, de 21 anos, da Pastoral da Juventude de Fortaleza.
O Papa já enviou mensagem especial aos jovens brasileiros: "Aguardo ansiosamente nosso encontro em Lisboa. O Brasil sempre ocupou lugar especial no coração da Igreja, e sua juventude é promessa de futuro para o cristianismo mundial".
Solidariedade e financiamento
O aspecto financeiro representa o maior desafio. O custo médio de participação (transporte, hospedagem, alimentação e documentação) gira em torno de R$ 8 mil por jovem. Dioceses criaram fundos solidários para viabilizar a participação de jovens carentes.
A campanha "Padrinhos da JMJ" mobiliza empresários católicos e comunidades paroquiais para patrocinar participações. Apenas na Arquidiocese de São Paulo, já foram arrecadados R$ 2,1 milhões para subsidiar 350 bolsas integrais.
"Investir na participação de um jovem na JMJ é investir no futuro da Igreja. Cada real doado pode mudar uma vida", apela Dom Joel Portella Amado.
Retorno e continuidade
As dioceses já planejam atividades pós-JMJ para garantir continuidade da experiência. O projeto "Multiplicadores de Lisboa" prevê que cada participante se comprometa a formar pelo menos três outros jovens em suas comunidades locais.
"A JMJ não termina em Lisboa. Termina quando conseguimos contagiar outros jovens com a mesma experiência de fé que vivemos lá", projeta Marina Santos, de 26 anos, coordenadora na Arquidiocese de Curitiba.
Legado permanente
Independentemente do número final de participantes, a mobilização para a JMJ Lisboa 2026 já renovou o movimento juvenil católico brasileiro. Grupos de jovens cresceram, vocações sacerdotais e religiosas aumentaram, e uma nova geração de líderes leigos se fortaleceu.
"A JMJ nos ensina que ser jovem e católico não é contradição, é aventura. É descobrir que Cristo tem propostas ousadas para nossa geração", conclui Gabriel Mendes, de 19 anos, seminarista que representa o entusiasmo de milhares de jovens brasileiros rumo a Lisboa.
Assim, enquanto se preparam para cruzar o oceano, estes jovens já transformam suas comunidades locais, provando que a fé jovem é força renovadora capaz de impactar tanto o Brasil quanto o mundo.
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