A Igreja brasileira e o desafio da Amazônia: fé e ecologia

Fuente: EncuentraIglesias

Na pequena comunidade ribeirinha de São Francisco do Urucu, no coração da floresta amazônica, a 400 quilômetros de Manaus, o sino da capela ecoa todas as manhãs chamando os moradores não apenas para a oração, mas para uma missão que transcende o espiritual: proteger a "casa comum" que Deus confiou à humanidade.

A Igreja brasileira e o desafio da Amazônia: fé e ecologia

Esta comunidade de 180 famílias, acompanhada pelo Padre Rômulo Silva da Prelazia de Coari, representa um microcosmo de como a Igreja Católica brasileira tem assumido protagonismo na defesa da Amazônia, integrando fé cristã e consciência ecológica de forma cada vez mais contundente.

"Nossa missão não é apenas salvar almas, mas salvar a criação inteira. A Amazônia é dom de Deus para toda a humanidade", afirma o missionário, que há 12 anos percorre rios e florestas levando os sacramentos e orientação sobre preservação ambiental às comunidades mais isoladas.

REPAM: rede episcopal pela Amazônia

A ação da Igreja na região ganhou articulação continental através da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), que reúne bispos, religiosos e leigos de nove países amazônicos. No Brasil, a iniciativa é coordenada pelo Cardeal Dom Cláudio Hummes, Arcebispo Emérito de São Paulo e grande defensor da causa amazônica.

"A Amazônia não é apenas pulmão do mundo, é coração do mundo. E a Igreja tem responsabilidade profética de defender este coração", declarou Dom Cláudio durante o último encontro da REPAM Brasil, realizado em Manaus.

Dom Roque Paloschi, Arcebispo de Porto Velho e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Amazônia da CNBB, coordena ações concretas de 58 dioceses e prelazias amazônicas. "Desenvolvemos projetos de economia solidária, educação ambiental e defesa dos direitos territoriais das populações tradicionais", explica.

Missionários na linha de frente

Os missionários católicos que atuam na Amazônia são testemunhas privilegiadas da devastação ambiental e, simultaneamente, agentes de conscientização e resistência. O Padre Paolo Braghini, missionário italiano que trabalha há 30 anos na região do Alto Solimões, documenta sistematicamente as transformações ambientais.

"Em três décadas, vi rios mudarem de curso, espécies desaparecerem, comunidades inteiras serem obrigadas a se deslocar por causa da degradação. É um drama ecológico e humano sem precedentes", relata o religioso, que mantém um arquivo fotográfico das mudanças ambientais na região.

Irmã Dorothy Stang, missionária americana assassinada em 2005 por defender comunidades rurais no Pará, tornou-se símbolo da luta socioambiental católica. Sua congregação, as Irmãs de Notre Dame de Namur, continua o trabalho através do Instituto Dorothy Stang, que forma lideranças locais em desenvolvimento sustentável.

Pueblos originários e Igreja

Uma das dimensões mais importantes da atuação eclesial amazônica é o acompanhamento aos povos indígenas. O Conselho Indigenista Missionário (CIMI), vinculado à CNBB, atua há mais de 50 anos na defesa dos direitos territoriais e culturais das etnias amazônicas.

Dom Flávio Giovenale, bispo de Cruzeiro do Sul (AC), que trabalha com nove etnias diferentes, explica a abordagem missionária: "Não viemos impor nossa cultura, mas aprender com a sabedoria ancestral sobre convivência harmônica com a natureza. Os povos originários são mestres em ecologia integral".

O Cacique Davi Kopenawa, líder yanomami e colaborador de missionários salesianos, testemunha essa parceria: "Os padres e irmãs entenderam que nossa floresta é sagrada. Juntos lutamos contra os garimpeiros e fazendeiros que destroem nossa casa".

Educação ambiental católica

Escolas católicas da região desenvolvem pedagogias específicas de educação ambiental. O Colégio Dom Bosco, em Manaus, pioneiro na implementação da disciplina "Ecologia Integral", forma jovens amazônidas comprometidos com a sustentabilidade.

Irmã Luciana Moraes, diretora pedagógica, explica a metodologia: "Partimos da espiritualidade de São Francisco de Assis para desenvolver consciência de que somos parte da criação, não seus donos. Nossos alunos fazem pesquisas de campo, conhecem comunidades ribeirinhas, aprendem sobre biodiversidade".

O projeto "Jovens Guardiães da Amazônia", desenvolvido pela Pastoral da Juventude em parceria com universidades católicas, já formou mais de 800 jovens líderes ambientais em seis estados da região.

Economia solidária e sustentável

A Igreja promove alternativas econômicas sustentáveis através de cooperativas e projetos de geração de renda baseados no uso racional dos recursos naturais. A Cooperativa Mista de Reflorestamento Econômico de Anapu (Coomreca), criada com apoio das Irmãs de Notre Dame, envolve 150 famílias na produção de açaí, cupuaçu e madeira de reflorestamento.

José Maria Santos, presidente da cooperativa, destaca os resultados: "Aprendemos que é possível viver bem da floresta sem destruí-la. Nossa renda triplicou e a mata está mais preservada que há 10 anos".

O projeto "Banco Palmas da Amazônia", inspirado na economia solidária católica, oferece microcrédito para iniciativas sustentáveis, financiando desde oficinas de artesanato até pequenas plantas de beneficiamento de produtos florestais.

Influência do pontificado de León XIV

O Papa León XIV, seguindo a linha de seu predecessor Francisco na questão ambiental, tem dado especial atenção à Amazônia. Em sua primeira encíclica, "Spes Renovata" (Esperança Renovada), dedica um capítulo inteiro à região, qualificando-a como "santuário de biodiversidade que demanda proteção urgente".

O pontífice anunciou para 2027 um "Jubileu da Criação", com celebrações especiais na Amazônia. "León XIV compreende que a questão ambiental é questão de vida ou morte para a humanidade. Sua liderança fortalece nossa missão", comenta Dom Roque Paloschi.

Desafios e resistências

O trabalho eclesial enfrenta resistências de setores econômicos interessados na exploração predatória. Nos últimos cinco anos, 12 agentes pastorais sofreram ameaças de morte por sua atuação ambiental. A CNBB criou um protocolo de segurança para missionários em áreas de conflito.

"Há interesses poderosos que veem a Igreja como obstáculo ao lucro fácil com destruição ambiental. Por isso sofremos pressões, mas não recuamos", afirma Padre Rômulo, que já foi ameaçado por denunciar garimpo ilegal em terras indígenas.

Articulação internacional

A Igreja brasileira articula-se internacionalmente na defesa da Amazônia. O Cardeal Dom Cláudio Hummes participa regularmente de conferências sobre mudanças climáticas, levando a perspectiva católica latino-americana.

A parceria com igrejas europeias e norte-americanas resulta em recursos para projetos amazônicos. A Conferência Episcopal Alemã contribuiu com 2,5 milhões de euros para iniciativas de desenvolvimento sustentável coordenadas pela Igreja brasileira.

Visão de futuro

Para 2030, a Igreja amazônica projeta a criação de uma "Universidade Católica da Amazônia", multi-campi, especializada em estudos ambientais e desenvolvimento sustentável. O projeto conta com apoio da Associação de Universidades Confiadas à Companhia de Jesus na América Latina.

"Queremos formar uma geração de profissionais comprometidos com a Amazônia. Engenheiros florestais, biólogos, sociólogos, teólogos que vejam a região com olhar integral", projeta Dom Flávio Giovenale.

Assim, a Igreja Católica brasileira consolidou-se como uma das principais vozes na defesa da Amazônia, demonstrando que fé autêntica necessariamente implica cuidado com a criação e compromisso com as futuras gerações.


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