Ao completar o primeiro aniversário da partida do Papa Francisco, em 21 de abril de 2025, nosso olhar se volta naturalmente para aquelas terras que ele carregou no coração com intensidade especial. O Oriente Médio, encruzilhada de civilizações e de fé, continua vivendo tensões profundas e conflitos que parecem não ter solução. Nesse contexto, o legado espiritual e pastoral de Francisco brilha como um farol de esperança, lembrando-nos que o caminho do diálogo e do encontro é sempre possível, mesmo quando as circunstâncias parecem mais sombrias.
Francisco não foi simplesmente um visitante nessas regiões. Ele foi como um irmão, reconhecendo em suas feridas as feridas de toda a família humana. Sua eleição em 2013 trouxe um vento novo para a Igreja e para o mundo, um chamado a redescobrir a essência do Evangelho: a misericórdia, o acolhimento e a busca incansável pela paz. Hoje, sob a orientação do Papa León XIV, essa missão continua, enraizada na mesma paixão pela unidade e pela reconciliação.
«Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mateus 5,9 NAA).
Peregrino da paz: As visitas que marcaram um caminho
O ministério de Francisco no Oriente Médio se desdobrou por meio de viagens que foram muito mais do que simples visitas de Estado. Foram verdadeiras peregrinações, gestos proféticos realizados seguindo os passos de Abraão, dos profetas e do próprio Jesus. Sua primeira viagem à região, em maio de 2014, o levou à Jordânia e à Terra Santa. Esse não foi um itinerário diplomático, mas um caminho do coração. Em Belém, no local da Natividade, e em Jerusalém, cidade da Paixão e Ressurreição, sua presença se tornou uma oração viva pela paz.
Em cada etapa, Francisco ergueu a voz não com tons de condenação, mas com a autoridade de quem convida à razão e ao respeito pela dignidade humana. Lembrou com força que a violência nunca pode ser justificada em nome de Deus, uma mensagem que ressoa com urgência ainda hoje. Sua ação redefiniu o próprio significado do diálogo inter-religioso, mostrando-o não como uma negociação entre posições, mas como um encontro fraterno entre filhos do mesmo Pai celestial.
A coragem no Cairo: Uma mensagem no coração da tempestade
Um dos momentos mais significativos de seu compromisso foi sem dúvida a visita ao Egito em abril de 2017. O Papa chegou ao Cairo em um momento de grande tensão, pouco depois de atentados terroristas que haviam semeado dor e medo. Muitos teriam aconselhado prudência, mas Francisco escolheu a presença. Para ele, estar ausente em tais circunstâncias teria sido trair a missão da Igreja de ser fermento e sal da terra, especialmente onde o mal parece prevalecer.
Ele se encontrou com autoridades civis e religiosas, incluindo o Papa Tawadros II da Igreja Copta Ortodoxa e o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb. Naquela prestigiosa universidade islâmica, pronunciou palavras que deram a volta ao mundo, enfatizando como uma religiosidade sem misericórdia e compaixão representa uma das ameaças mais graves para a convivência humana. Sua visita foi um abraço moral ao povo egípcio, um sinal tangível de que a fé autêntica constrói pontes, não muros.
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Levítico 19,18b NAA).
A herança viva: Esperança para as feridas abertas
Um ano após sua partida, o Oriente Médio ainda parece dilacerado por conflitos persistentes, tensões não resolvidas e crises econômicas que empurram muitos para a emigração ou o desespero. Nesse cenário, a pergunta que a herança de Francisco nos coloca é mais atual do que nunca: o mundo realmente ouviu sua voz? Acolheu o convite para construir a paz sobre a justiça e o diálogo?
A obra de Francisco não se limitou a gestos simbólicos. Sua insistência no diálogo como único caminho para a paz continua sendo um desafio para todos, crentes e não crentes. Em um mundo onde as divisões parecem se aprofundar, seu testemunho nos lembra que a esperança não é uma ilusão, mas uma força que pode transformar realidades. O Papa León XIV, dando continuidade a essa missão, nos convida a manter viva essa chama, a ser construtores da paz em nossos próprios contextos, seguindo o exemplo de quem soube ver no Oriente Médio não apenas um problema, mas uma terra abençoada por Deus, chamada a ser terra de encontro e reconciliação.
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