No coração do século XVI espanhol, uma figura espiritual excepcional marcou sua época pela profundidade de sua fé e pela força de sua pregação. São João de Ávila, nascido em 1500 perto de Toledo, é reconhecido como um dos grandes mestres da vida interior. Vindo de uma família de judeus convertidos, ele manifestou desde cedo um desejo ardente de conhecer a Deus e fazê-lo conhecido. Seus estudos em Salamanca e Alcalá lhe deram uma sólida formação teológica, mas foi seu encontro pessoal com Cristo que transformou sua vida. Ordenado sacerdote, escolheu deixar tudo para anunciar o Evangelho, vendendo seus bens para dar aos pobres. Seu ministério se desenrolou na Andaluzia, onde multidões inteiras vinham ouvi-lo.
O que impressiona em São João de Ávila é a união íntima entre a oração e a ação. Ele nunca separava a contemplação do anúncio da Palavra. Para ele, o conhecimento de Deus devia levar a uma conversão profunda do coração. Em seus escritos, ele insiste na necessidade de conhecer a si mesmo para melhor se abrir à graça divina. «Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás a Deus», costumava repetir. Essa espiritualidade influenciou muitos santos, como São João de Deus, São Francisco de Borja e Santa Teresa de Ávila.
«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mateus 5:8, NVI)
Esta bem-aventurança resume bem o ensinamento de João de Ávila: a pureza do coração é a chave para ver a Deus. Ele encorajava os fiéis a se deixarem purificar pelo Espírito Santo para entrar numa relação de amor com o Senhor.
A prova da prisão e a graça do sofrimento
A vida de São João de Ávila não foi um mar de rosas. Sua exigência espiritual e sua liberdade de palavra lhe renderam suspeitas. Acusado injustamente de heresia, foi preso pela Inquisição espanhola. Essa prova foi para ele uma participação no mistério da cruz de Cristo. Longe de se revoltar, ele aceitou esse sofrimento como uma graça. Durante sua detenção, redigiu grande parte de suas obras espirituais, incluindo o famoso «Audi, filia» (Escuta, filha). Esses escritos, de grande profundidade teológica, ainda são estudados hoje.
O papa Paulo VI destacou que São João de Ávila «dominou essas provas com uma espiritualidade intensa». De fato, sua fé não foi abalada pela injustiça. Ao contrário, ele encontrou no sofrimento um caminho de união ao Cristo crucificado. Essa experiência lhe deu uma autoridade particular para acompanhar as almas em suas próprias provas. Ele é um modelo para todos que atravessam momentos de dúvida ou perseguição.
«Alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também exultem com grande alegria quando a sua glória for revelada» (1 Pedro 4:13, NVI)
São João de Ávila viveu esta palavra do apóstolo Pedro. Sua alegria não era superficial, mas brotava da certeza de que o sofrimento oferecido a Deus dá fruto para a Igreja.
Um doutor para a Igreja de hoje
Em 2012, o papa Bento XVI proclamou São João de Ávila doutor da Igreja, ao lado de Santa Hildegarda de Bingen. Esse título reconhece a sabedoria e a atualidade de seu ensinamento. Mas o que este santo do século XVI pode nos dizer, cristãos do século XXI? Muita coisa! Primeiro, ele nos lembra a importância da formação espiritual. Num mundo que corre, ele nos convida a tirar tempo para a oração e a meditação da Palavra de Deus. Segundo, ele nos ensina que a santidade não é reservada a uma elite, mas é acessível a todos que buscam a Deus sinceramente.
Sua mensagem é também um chamado à conversão interior. Não se trata apenas de práticas externas, mas de uma transformação do coração que nos leve a amar a Deus e ao próximo com autenticidade. São João de Ávila nos encoraja a redescobrir a beleza da vida cristã, vivida com simplicidade e entrega. Em tempos de incerteza, seu exemplo nos sustenta e nos lembra que Deus nunca abandona aqueles que confiam Nele.
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