Papa Leão XIV em Angola: A fé verdadeira vai além de buscar vantagens

Fonte: EncuentraIglesias Editorial

Durante uma celebração solene em Saurimo, Angola, no dia 20 de abril de 2026, o papa Leão XIV ofereceu aos fiéis uma profunda meditação sobre a natureza da nossa busca por Deus. Apoiando-se no episódio evangélico da multiplicação dos pães, o sucessor de Pedro convidou a assembleia a um exame de consciência sobre as motivações que impulsionam nossa caminhada espiritual. Esta homilia, pronunciada com a doce firmeza que caracteriza seu ministério, ressoa como um chamado a purificar nossa intenção, lembrando-nos que o caminho de Cristo exige mais do que uma busca por bem-estar imediato.

Papa Leão XIV em Angola: A fé verdadeira vai além de buscar vantagens

O Santo Padre iluminou assim um obstáculo sutil, mas real: o de reduzir a relação com o Senhor a uma simples transação, onde a fé se tornaria um meio para um fim. Nestes tempos em que as solicitações materiais são numerosas, sua mensagem nos interpela diretamente. Ele nos encoraja a superar uma visão utilitária da religião para entrar numa comunhão verdadeira, fundada no amor e na confiança.

O relato de João: um espelho para nossas intenções

Para fundamentar sua mensagem, o papa Leão XIV voltou-se para o sexto capítulo do Evangelho segundo João. Citou as palavras de Cristo, que permanecem de uma atualidade candente:

«Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes.» (João 6:26, ARA)
Este versículo serve como pedra de toque para avaliar a sinceridade de nossa caminhada. O Salvador aponta aqui para a tentação de segui-Lo pelos dons que Ele distribui, em vez de por Sua própria pessoa.

O milagre dos pães, manifestação evidente da compaixão divina, pode paradoxalmente tornar-se uma armadilha se nos detivermos apenas no dom material. A multidão, saciada fisicamente, corre atrás de Jesus para obter novamente aquele alimento. O papa nos convida a meditar esta cena: buscamos a Cristo pelo que Ele nos dá, ou pelo que Ele é? A pergunta, feita com grande clareza, toca o coração da experiência de todo crente.

Da satisfação imediata à fome espiritual

O relato continua com um ensino fundamental. Jesus não condena a necessidade de alimento, mas Eleva o olhar de seus interlocutores:

«Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo.» (João 6:27, ARA)
Aqui, o papa Leão XIV destacou a mudança progressiva operada pelo Mestre: da preocupação com o pão cotidiano, Ele orienta os corações para o desejo do pão da vida, que é Ele mesmo. A fé autêntica nasce desta conversão do olhar, que aprende a discernir, por trás dos benefícios recebidos, a mão bondosa do Doador.

As armadilhas de uma fé desvirtuada

Na continuação de sua homilia, o Santo Padre identificou com precisão vários desvios que espreitam o caminho espiritual. O primeiro consiste em considerar Deus como uma espécie de força mágica ou amuleto da sorte, invocado apenas nos momentos de angústia. Tal atitude aproxima-se mais da superstição do que da confiança filial. Transforma o Todo-Poderoso num ídolo a nosso serviço, invertendo assim a ordem justa da relação.

Outro desvio, estreitamente relacionado, é o de uma lógica puramente utilitária. Nesta perspectiva, a oração torna-se uma lista de pedidos, e espera-se que o Senhor responda prontamente e de acordo com nossos desejos. O papa recordou com força que Cristo «não quer nem servos nem clientes, mas busca irmãos e irmãs». Esta frase, retomada de seu predecessor o papa Francisco, cuja memória honramos, resume magnificamente a natureza da aliança que Deus deseja estabelecer conosco. Uma fé madura não negocia com o Céu; abandona-se com confiança, sabendo que o Pai conhece nossas necessidades antes de lhas pedirmos.

Por fim, o pontífice alertou para o risco de uma religiosidade superficial, centrada em ritos externos ou na busca de experiências emocionais intensas, sem um compromisso real da pessoa. A adesão autêntica a Cristo implica uma transformação interior, um «sim» total que toca todas as dimensões da existência. Como expressou o papa Leão XIV com uma imagem evocadora: «Não se trata de acrescentar Deus à nossa vida como mais um acessório, mas de fazer d'Ele o centro a partir do qual tudo ganha sentido».

Um chamado à autenticidade

A homilia em Angola concluiu com um chamado vibrante à coerência e à autenticidade. O papa Leão XIV exortou os fiéis a examinar regularmente a qualidade de seu relacionamento com o Senhor. Oramos apenas quando precisamos de algo? Nossa participação na vida da Igreja responde a uma verdadeira sede de Deus, ou à busca de um consolo passageiro ou de um reconhecimento social?

O caminho proposto é o da simplicidade e da transparência. Trata-se de nos apresentarmos diante de Deus como somos, com nossas fragilidades e nossos anseios, mas com o desejo sincero de encontrá-Lo. A Eucaristia, o «pão da vida» por excelência, é o lugar privilegiado para este encontro. Ali, não recebemos um simples alimento, mas a própria Pessoa de Cristo, que se nos dá para nos transformar n'Ele.

Esta mensagem do papa Leão XIV, proferida longe dos holofotes da mídia, na simplicidade de uma celebração na África, possui uma ressonância universal. Num mundo marcado pelo pragmatismo e pelo imediatismo, convida-nos a redescobrir a gratuidade do amor de Deus. Uma fé que se contenta com os benefícios é uma fé pobre. A fé que Cristo deseja é uma aventura de amor, um seguimento alegre e por vezes exigente, que encontra sua recompensa na alegria da comunhão com Ele, aqui na terra e por toda a eternidade.


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