Nosso Caminho de Dúvida e o Encontro com o Cristo Ressuscitado

Fonte: EncuentraIglesias Editorial

Neste terceiro domingo do tempo pascal, o Evangelho segundo São Lucas nos transporta para a estrada que leva de Jerusalém a Emaús. Dois discípulos caminham com o coração pesado, após os acontecimentos trágicos que acabaram de abalar seu mundo. Eles acabaram de perder aquele em quem haviam depositado todas as suas esperanças. Sua conversa está marcada pela decepção e pela incompreensão. É nesse contexto de desânimo que ocorre um encontro misterioso.

Nosso Caminho de Dúvida e o Encontro com o Cristo Ressuscitado

Um estranho se junta a eles no caminho e caminha ao seu lado. Ele se interessa pela conversa deles, pergunta o que os preocupa tanto. Os discípulos, surpresos que alguém possa ignorar os acontecimentos recentes, contam tudo: Jesus de Nazaré, o profeta poderoso em palavras e obras, a condenação pelos líderes religiosos, a crucificação, e agora esses rumores estranhos sobre um túmulo vazio. Seu relato é o de uma esperança despedaçada.

O que os discípulos ainda não sabem é que quem caminha com eles é o próprio Ressuscitado. Jesus escolhe não se revelar imediatamente. Ele entra na experiência de dúvida deles, ouve sua desilusão, respeita seu processo de luto. Essa abordagem pastoral nos ensina muito sobre como Deus se aproxima da humanidade.

A Abertura das Escrituras: Uma Chave para Compreender

Diante da incompreensão deles, Jesus não começa com revelações espetaculares. Ele não mostra suas feridas, não faz um milagre deslumbrante. Pelo contrário, ele os leva de volta às Escrituras. Como relata São Lucas:

“E, começando por Moisés e todos os Profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras.” (Lucas 24:27, NVI)

Essa abordagem é fundamental. Jesus não apresenta uma nova mensagem, mas revela a coerência profunda do plano divino através do Antigo Testamento. Ele mostra como as Escrituras prefiguravam sua missão, seus sofrimentos e sua glória. Os discípulos conheciam esses textos, mas nunca os haviam lido através da lente da morte e ressurreição do Messias.

O profeta Isaías havia anunciado essa realidade vários séculos antes:

“Era desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e nós não o tínhamos em estima. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças; contudo nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido.” (Isaías 53:3-4, NVI)

Jesus lhes revela que os sofrimentos do Messias não foram um fracasso, mas o cumprimento do plano divino para a salvação da humanidade. Essa perspectiva transforma completamente a compreensão deles sobre os acontecimentos recentes.

A Pedagogia Divina da Revelação Progressiva

Deus nem sempre se revela de maneira imediata e espetacular. O episódio de Emaús nos mostra uma pedagogia divina que respeita o ritmo humano de compreensão. Jesus começa ouvindo, depois ensina a partir das Escrituras, e finalmente se revela na intimidade da refeição compartilhada.

Essa progressão nos lembra que a fé nem sempre é uma iluminação repentina, mas muitas vezes uma caminhada progressiva. Como os discípulos, podemos passar por períodos de dúvida onde a presença de Deus parece ausente. A história de Emaús nos garante que, mesmo nesses momentos, Cristo caminha ao nosso lado, mesmo que não o reconheçamos imediatamente.

A Fração do Pão: Lugar do Reconhecimento

O momento decisivo desse encontro ocorre quando os discípulos chegam ao seu destino. O estranho faz de conta que vai continuar sua jornada, mas eles o convidam para ficar: “Fica conosco, pois já é tarde, e o dia já está quase no fim.” (Lucas 24:29, NVI). Esse convite humilde abre a porta para a revelação final.

À mesa, Jesus toma o pão, dá graças, parte-o e o entrega a eles. Nesse gesto familiar, os olhos dos discípulos se abrem e eles o reconhecem. O mesmo Jesus que havia caminhado com eles, explicado as Escrituras, agora se revela plenamente na fração do pão. Imediatamente depois, ele desaparece de sua vista, mas já não é um estranho. Seu coração ardia enquanto ele lhes falava no caminho, e agora sua fé se acende com nova força.

Esse relato nos convida a reconhecer Cristo nos momentos cotidianos, na Palavra compartilhada e na comunhão fraterna. Ainda em nossas dúvidas, Ele caminha conosco, iluminando nosso entendimento e se revelando nos gestos simples da vida comunitária.


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