Nas últimas semanas, o coração de muitos cristãos voltou-se com apreensão para o Líbano. O anúncio de uma suspensão das hostilidades ao longo da fronteira israelo-libanesa trouxe um momento de alívio para uma região historicamente martirizada. Dom Hanna Rahmé, arcebispo maronita de Baalbeck-Deir el-Ahmar, no vale do Beqaa, recebeu essa notícia como um sinal positivo, mas nos convida a olhar além. Parar a violência, mesmo que por poucos dias, salva vidas humanas e é um dever moral inescapável. No entanto, como uma ferida que é estancada mas não curada, uma trégua temporária não resolve as causas profundas do conflito. O verdadeiro desafio, como destaca o prelado, é construir uma paz estável e duradoura, que devolva dignidade e soberania ao povo libanês.
A situação no Líbano é complexa e estratificada. A presença de milícias armadas fora do controle do Estado representa uma ameaça constante à estabilidade nacional e à segurança dos cidadãos. Dom Rahmé enfatiza uma questão crucial: para ter um "Estado livre e com plena autoridade", é necessário que todas as armas estejam sob o controle do exército regular. Isso não é apenas um problema de segurança, mas uma questão de justiça e de respeito ao direito internacional. As comunidades cristãs no Líbano, enraizadas há séculos naquela terra, testemunham com sua própria presença o desejo de uma convivência pacífica.
A voz das comunidades cristãs: Testemunhas da paz
Em meio às tensões, as comunidades cristãs no Líbano desempenham um papel profético e fundamental. Elas não são meras espectadoras dos acontecimentos, mas atoras ativas na busca da reconciliação. Muitos fiéis, como contam os párocos locais, escolheram permanecer em suas casas e em suas aldeias mesmo durante os momentos mais críticos. Essa escolha não nasce da inconsciência, mas de um profundo apego à terra e de uma firme oposição à lógica da guerra. É um sinal forte e claro: a resposta à violência não pode ser mais violência, mas a tenaz vontade de construir, de permanecer, de testemunhar.
Esse testemunho recorda as palavras do profeta Isaías: "Eles transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices. Nenhuma nação pegará em armas contra outra, e ninguém mais se preparará para a guerra" (Isaías 2:4 NVI). O sonho de uma paz universal, onde os instrumentos de morte se tornam instrumentos de vida, é o farol que guia o compromisso de tantos crentes na Terra Santa e no Oriente Médio. A presença cristã no Líbano é uma ponte entre culturas e religiões, um chamado constante aos valores da fraternidade e do diálogo.
Padre Toufic Bou Merhi, frade da Custódia da Terra Santa e pároco em uma vasta área do sul do Líbano, descreve as noites de medo vividas pela população. A trégua finalmente permitiu que muitos deslocados retornassem para suas casas, com o coração na garganta, para avaliar os danos e começar a pensar na reconstrução. O desejo de voltar à normalidade, de reconstruir o que foi destruído, é um impulso profundamente humano e cristão. A Igreja, nessas circunstâncias, assume a responsabilidade não apenas do apoio espiritual, mas também da ajuda humanitária concreta, ficando ao lado de quem perdeu tudo.
Além da trégua: O caminho árduo rumo a uma paz global
Dom Rahmé aponta com realismo que o Líbano sozinho não pode resolver os nós geopolíticos que o atravessam. A questão do desarmamento das milícias está entrelaçada com dinâmicas regionais mais amplas, que envolvem atores internacionais. Por isso, o arcebispo maronita invoca um envolvimento decidido e responsável da comunidade internacional. A diplomacia e a pressão construtiva são ferramentas essenciais para criar as condições de um acordo global que garanta a segurança de todos.
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